sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Análise de redação

Seguem os comentários sobre o texto publicado no post anterior. Por meio dessa análise, serão apresentados pontos importantes para a elaboração de uma boa dissertação-argumentativa.
O tema: Norma culta: tradição, necessidade ou instrumento de poder?
As reflexões iniciais
Antes de começar o texto, eu já tinha opinião formada sobre o assunto. Sendo da área de Letras, já participei de muitos debates sobre o tema e, também, bastante coisa já li a respeito desse tópico.
Não penso que a norma padrão da língua portuguesa seja mais importante que as outras variantes de comunicação. Porém, acho hipocrisia dizer que essas normas não são necessárias. É claro que são! Em algumas situações, é preciso seguir o padrão gramatical sim.
Então, dentre as opções apresentadas, defenderei a norma culta como necessidade.

"O falante deve ser poliglota em sua própria língua".
                                                                 Evanildo Bechara

Parênteses
(Sei que é batido comparar a adequação linguística à adequação em relação às vestimentas, mas me lembrei de uma situação interessante.
Em uma escola em que trabalho, um aluno, adolescente, estava revoltado porque havia sido advertido em relação à roupa que estava usando para ir à escola. Ele estava indo com calça rasgada, gorro e pantufas. Isso mesmo: pantufas!! E depois que a direção da escola ligou para a mãe dele informado a situação, e ele levou uma bronca, veio desabafar comigo. Ele disse que não usar o uniforme completo não significa que ele esteja desrespeitando a escola, disse que as suas roupas em nada influenciariam seu rendimento escolar. É claro que eu concordei com ele!! É claro até que eu o entendi. Mas tive que falar sobre a necessidade de adequação. Perguntei a ele se eu seria respeitada pela turma se fosse dar aula com calça da Gang, marquinha de biquíni aparecendo e barriga de fora. Ele disse que não, reconheceu que seria inapropriado. E olha que meus alunos não vêem em mim uma senhorinha. Eu tenho 30 anos e eles me acham descolada, jovem e tal...
Pois bem... com a Língua acontece a mesma coisa. O fato de eu ser jovem não me dá o direito de usar, por exemplo, em uma apresentação acadêmica, as gírias que eu uso quando estou com meus amigos. Não me dá o direito de escrever um texto profissional iniciando o período com pronome átono. Talvez isso tudo sejam convenções sociais - e questionar as convenções é sempre importante - mas... acho difícil uma pessoa ser tão livre, ser tão autônoma a ponto de não precisar segui-las.)
É o seguinte: em tudo isso eu pensei antes de começar o texto. E, para quem acha que é perda de tempo pensar muito antes de iniciar a redação, eu digo ser esse momento essencial para a produção de um bom texto. Não começamos a redação quando iniciamos a escrita, começamos a redação quando começamos a pensar sobre o tema.

O roteiro
Todas as minhas reflexões sobre o assunto foram postas no papel de rascunho e, depois, eu selecionei quais argumentos seriam mais fortes e em que ordem eu iria apresentá-los.
Nesse momento, o meu texto já tinha uma cara, já formava um todo coerente, com posicionamento definido e ideias para sustentá-lo.

A introdução
Vejam o início:
Os debates em torno do uso normativo da língua são sempre polêmicos. A expressão “linguagem culta” já é motivo para discussões, uma vez que, para muitos, tal expressão seria uma maneira de dizer que aqueles que não dominam a variante formal são incultos.
Reparem que em todo esse trecho, não houve posicionamento meu a respeito do tema proposto. Até esse momento, eu só falei sobre o assunto, de maneira geral.

Agora, vejam o final da introdução:
O importante a se pensar, porém, é que ainda que a coloquialidade tenha seu espaço em determinados contextos, conhecer a norma culta – ou padrão – é imprescindível.
Reparem que nesse momento sim eu me posiciono. A banca propôs que eu defendesse o uso da norma culta como tradição, como necessidade ou como instrumento de poder. De maneira clara, eu respondo à pergunta feita: a norma culta é necessária. Usei o sinônimo “imprescindível” para o texto não ficar repetitivo, uma vez que as palavras “necessidade”, “necessária” estarão muito presentes na redação.

E como eu comprovo que o registro formal é necessário?
Vamos ao desenvolvimento.

D1: usar a norma padrão é necessário porque:
 O indivíduo que não comete desvios graves em relação à norma é bem visto, pois a comunicação funciona como seu marketing pessoal.
Ao final, eu exemplifico, citando a importância disso no ambiente profissional.
Vejam que a exemplificação ao final tornou o argumento mais forte. As ideias saíram do campo teórico e foram trazidas para a prática.
Em primeiro lugar, é importante considerar que há locais sociais, na maior parte das vezes, só alcançados por aqueles que dominam a língua padrão. A comunicação orientada pela norma funciona como marketing pessoal de um indivíduo, pois quanto melhor ele consegue se expressar, mais ele é observado pelos outros como instruído e mais passa credibilidade. Em termos de relações profissionais, por exemplo, isso é de extrema importância.

D2: usar a norma padrão é necessário, apesar do que dizem os linguistas:
Nesse parágrafo, eu trabalho com a contra argumentação. Penso nos argumentos de quem pensa diferente de mim e os uso a meu favor.
Outro ponto interessante a ser observado é que muitos que, em teoria, criticam a necessidade do uso formal da língua apresentam-se incoerentes em suas práticas. Um exemplo nesse sentido é o professor e escritor Marcos Bagno, que, comumente, em seus livros, apregoa a ideia de que seguir a gramática é uma forma de atraso, no entanto, seus textos são sempre bastante lapidados em termos de regras gramaticais. Bagno e outros linguistas radicais, ao contrário do que objetivam, comprovam que seguir as normas é uma questão de necessidade para se defender bem ideias.
Ao final do parágrafo, eu faço o arremate, ratificando a necessidade da norma padrão (trecho sublinhado).
Ponto importante: citar escritores é uma boa estratégia para dar ao texto um tom diferenciado, para fazer com que a redação se destaque no meio das outras.  Já fiz uma redação, também para um concurso para professor, em que eu deveria dizer se ainda havia preconceito racial no Brasil. Lembro-me de que falei sobre Gilberto Freyre e seu clássico Casa grande e senzala. (Vou ver se encontro essa redação).

D3: usar a norma padrão é necessário para que haja uma boa comunicação, porém linguagem padrão não é linguagem rebuscada:
Faz-se importante salientar, também, que quando se fala em seguir a norma culta, não se está defendendo usar linguagem difícil. O uso exagerado de regras pouco familiares no dia-a-dia e palavras rebuscadas são dispensáveis para a troca de mensagens entre interlocutores. Entretanto, o contraponto é necessário: a ausência total dessas regras pode também impedir que se estabeleça um natural processo de comunicação.
Começo o parágrafo dizendo que nem todas as normas precisam ser usadas no dia-a-dia para que se tenha uma boa comunicação. No entanto, como arremate, insisto: a ausência total de normas também pode ser prejudicial.

Reparem que em todos os parágrafos de desenvolvimento eu reforço, de forma explícita, o registro formal como necessidade. Ou seja, em todos os parágrafos, eu retomo a proposta da redação. Essa estratégia de explicitação é importante para que o avaliador não pense que em algum momento houve fuga parcial do tema.
 A conclusão
Por fim, minha conclusão pobrinha:
O ideal é que o falante saiba identificar em que contextos ele pode usar cada uma das variantes. Conhecer as duas é, portanto, fundamental.
Como já comentei no artigo anterior, está faltando criatividade nesse parágrafo. Mas também não se pode dizer que ele está errado. Retomei a minha frase-guia e fechei o texto.