quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A juventude pode mudar o futuro? - Análise da proposta de redação UERJ 2012

Olá!  Em junho de 2015, o blog voltará a ter publicações periódicas. Você tem dificuldade em algum tema específico e quer que eu o aborde por aqui? Se sim, envie-me um e-mail explicando-me a sua necessidade e eu preparei novos conteúdos a respeito! Aguardo seu contato pelo e-mail: lygiafs@yahoo.com.br 
Até breve!

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O tema da redação do vestibular da UERJ, em dezembro de 2011, foi o seguinte:

“É possível, para a juventude de hoje, alterar o futuro?”

O texto de apoio apresentado era do historiador Eric Hobsbawn e, sinceramente, pela primeira vez, não achei a sua leitura importante para produzir uma boa redação.

A propósito, abrirei parêntese para falar um pouco sobre essa questão:

Alguns professores defendem que o aluno nunca deve ler os textos de apoio, argumentando que eles não têm utilidade, já que o candidato não pode copiar as ideias nele apresentadas. Eu discordo totalmente dessa orientação e acho que os textos de apoio na redação podem ser importantíssimos, pois podem ampliar a visão do candidato sobre o tema.

Por exemplo, vamos imaginar um tema hipotético: “O consumismo na sociedade”. Imagine que, com base nessa proposta, e sem ler os textos de apoio, o candidato pense em 2 linhas de argumentação:

- dizer que o consumismo é essencial porque move a economia;
- falar sobre o consumismo como patologia comum nos tempos modernos.

Com esses dois argumentos, é possível fazer um bom texto, é claro.
Agora, imaginemos que esse mesmo candidato leia os textos de apoio e verifique que a maioria deles fale sobre as consequências ambientais do consumismo. Tem-se aí uma nova possibilidade de argumentação. O candidato, que ainda nem havia pensado na questão ambiental, pode enriquecer seu texto com essa ideia. E isso significa que o texto serviu como motivação e não como cópia.

Fechando parêntese e retomando:

O texto motivador da redação da UERJ não ajudou o candidato, contrariando, em minha opinião, o que acontece na maior parte das vezes nos vestibulares. Esse texto, inclusive, podia fazer o candidato perder tempo, pois não é um texto facílimo de entender em uma primeira leitura.

Transcrevo-o abaixo só para que todos saibam do que estou falando:

“Há uma diferença entre esses movimentos de jovens educados nos países do Ocidente, onde, em geral, toda, a juventude é fenômeno de minoria, e movimentos similares de jovens em países islâmicos e em outros lugares, nos quais a maioria da população tem entre 25 e 30 anos. Nestes países, portanto, muito mais do que na Europa, os movimentos de jovens são politicamente muito mais massivos e podem ter maior impacto político. O impacto adicional na radicalização dos movimentos de juventude acontece porque os jovens hoje, em período de crise econômica, são desproporcionalmente afetados pelo desemprego e, portanto, estão desproporcionalmente insatisfeitos. Mas não se pode adivinhar que rumos tomarão esses movimentos. Mas eles só, eles pelos seus próprios meios, não são capazes de definir o formato da política nacional e todo o futuro. De qualquer modo, devo dizer que está a fazer-me perguntas enquanto historiador, mas sobre o futuro. Infelizmente, os historiadores sabem tanto sobre o futuro quanto qualquer outra pessoa. Por isso, as minhas previsões não são fundadas em nenhuma especial vocação que eu tenha para prever o futuro”.

Eric Hobsbawn
Adaptado de http://historia.me

No entanto, apesar do texto de apoio difícil, o tema em si foi bem tranquilo. Como já disse aqui no blog em outros momentos, os temas em forma de pergunta tendem a ser mais fáceis, pois já há, na própria proposta, uma orientação sobre o que deve ser dito. Nesse caso, por exemplo, era preciso:

Em primeiro lugar: responder se a juventude de hoje pode ou não mudar o futuro.
Em segundo lugar: comprovar o posicionamento escolhido.

Merecem atenção as seguintes questões:

- Usar a juventude dos anos 60 como exemplo para comprovar que o jovem pode mudar o futuro não é adequado, pois o foco deve ser o jovem de HOJE, em que temos um contexto social muito diferente do que havia nos anos 60. A referência às mobilizações que se realizaram nos anos de 1960 pode até acontecer para falar de potencialidade da juventude, mas esse não deve ser o foco para sustentação do posicionamento.

- E se o candidato pensar que a juventude de hoje não pode mudar o futuro? Isso poderá ser dito ou ele necessariamente deve ser otimista?
Não existe resposta certa. Existe a SUA resposta e ela será aceita se você a sustentar bem. Porém... é preciso tomar cuidado para não fazer um texto pessimista demais, radical demais. Isso porque radicalismos são de difícil sustentação. Além disso, ainda que você não acredite na juventude de hoje como transformadora, é legal mostrar que pelo menos alguma esperança existe.

- Uma das palavras principais do tema é “alterar” e é preciso pensar sobre isso. Mudar o quê? Alterar o quê? O que está ruim hoje que, se mudado, transformará o futuro? Não pensar nessas questões pode deixar o texto bem inconsistente.


Bom, é isso!

Para terminar, gostaria de saber notícia dos que fizeram essa redação. Quanto tiraram? Qual foi a linha de raciocínio usada para desenvolver o tema? Fiquem à vontade para compartilhar conosco nos comentários.

Até mais!
Imagem retirada do site www.jota7.com