quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Ousadia na dissertação

Em 2009, a proposta de redação da UFRJ foi a seguinte:


Pensar ou agir de modo distinto da maioria das pessoas pode ser visto como algo simplesmente diferente, ou como inadequação, ou até mesmo loucura.
Considerando a afirmativa acima, elabore um texto dissertativo-argumentativo em que você apresente suas reflexões a respeito do olhar sobre a normalidade/anormalidade.
O autor do texto abaixo foi bastante criativo, e até ousado, na produção da redação. A banca da UFRJ entendeu o seu objetivo e considerou essa redação como acima da média.
Não transcrevi todo o texto, apenas os parágrafos de introdução e de conclusão. Se for de interesse de vocês, posto depois a redação na íntegra.

Texto:
Introdução
            Eu não compro Baton, não votaria no Obama, não gosto de futebol, e acredito que o uso da terceira pessoa na dissertação é só mais uma marca do racionalismo excessivo e da impassibilidade das relações interpessoais atuais. Seria loucura escrever diferente do recomendado, do previsível, do normal. Seria acusado, mas não seria covarde. De fato, o melhor a fazer é tentar entender por que muitos não o fariam, por que a imaginação e a criatividade entraram em falência e levaram junto um pouco da natureza humana.
Conclusão
            Torna-se evidente, portanto, que o medo da quebra da normalidade pode até ser normal naqueles que estão tão afogados em suas culturas que se alienaram em realidades que desejam ser imutáveis. Contudo, é dever dos “loucos” os salvarem, emergindo de novo sua condição humana, sua capacidade de colocar o mundo a sua volta em crise, insatisfazer-se. A realidade contemporânea, entretanto, conta com problemas que tornam essa ferida mais difícil de cicatrizar, como o individualismo. O irônico é ver  aqueles que defendem essa ação coletiva para retorno da criatividade escreverem na 3a pessoa do singular: são as contradições de uma sociedade que mantem seu lado humano vendado, e só enxerga quando quer. Parafraseando Machado de Assis: “Abane a cabeça, leitor”.
(Fonte: UFRJ)

Talvez pelo fato de eu não ser uma pessoa das mais criativas para escrever, fico em êxtase quando vejo alguém ser brilhantemente inteligente saindo do habitual. Fiquei apaixonada por essa redação!!


Vamos à análise:


A primeira pessoa do singular e a frase-guia da redação
Sabemos que nos textos dissertativos a primeira pessoa do singular NUNCA deve ser utilizada. Faz parte da estrutura desse gênero textual o uso de linguagem impessoal, no entanto, o autor dessa redação é bastante ousado e inicia o texto com o “Eu”.
Eu não compro Baton, não votaria no Obama, não gosto de futebol, e acredito que o uso da terceira pessoa na dissertação é só mais uma marca do racionalismo excessivo e da impassibilidade das relações interpessoais atuais”.
Mas esse uso foi claramente proposital e fazia total sentido em relação ao tema proposto. Se a banca queria que o candidato refletisse sobre a ideia de  pensar ou  agir de modo distinto da maioria, nada mais criativo do que iniciar o texto de maneira diferente da maioria. A banca compreendeu que o autor sabe que a linguagem impessoal deve ser utilizada na dissertação e encarou o início do texto dele como uma estratégia para dar sentido a sua tese, que foi:
De fato, o melhor a fazer é tentar entender por que muitos não o fariam, porque a imaginação e a criatividade entraram em falência e levaram junto um pouco da natureza humana.
Podemos dizer que essa é a frase-guia do texto. Já percebo, nessa frase, que o autor, durante o desenvolvimento, explicará por que as pessoas não saem dos padrões estabelecidos e defenderá o quanto esse processo é prejudicial ao Homem.

Reafirmação da tese
No primeiro período da conclusão, o autor reafirma a ideia exposta na introdução de que a padronização é prejudicial. Ele afirma que as pessoas que só seguem aquilo que está estabelecido são alienadas.
“[...]o medo da quebra da normalidade pode até ser normal naqueles que estão tão afogados em suas culturas que se alienaram em realidades que desejam ser imutáveis”.
Em seguida, diz que são os “loucos”, ou seja, aqueles que ousam, aqueles que não têm medo de fugir do considerado normal que salvarão o mundo.
“[...] é dever dos “loucos” os salvarem, emergindo de novo sua condição humana, sua capacidade de colocar o mundo a sua volta em crise, insatisfazer-se”.

A ironia
Magistralmente, também na conclusão, o autor se dirige à banca avaliadora e diz que, apesar de não gostar de seguir padrões, escreve o texto em terceira pessoa, quer dizer, segue o pré-estabelecido, por uma exigência social:
“O irônico é ver aqueles que defendem essa ação coletiva para retorno da criatividade escreverem na 3a pessoa do singular”.

A informação cultural como arremate
Para fechar o texto, o autor cita uma frase de Machado de Assis, em que há a ideia de passividade: o leitor abanando a cabeça (dizendo sim). Trata-se de uma alusão à sociedade, que “abana a cabeça” para o que lhe é imposto.
Parafraseando Machado de Assis: “Abane a cabeça, leitor”.

Adorei!