sábado, 1 de outubro de 2011

Todos os gestos de incredulidade - Voltando à conclusão

No dia 01/09/2011, a minha postagem teve como título “Ousadia na dissertação” e eu apresentei a introdução e a conclusão de uma redação muito original feita por um vestibulando.
Como último período da conclusão, o autor citou Machado de Assis e eu apresentei a minha interpretação para esse trecho. Vejam novamente o início e o fim desse texto e também a observação que fiz sobre a citação de Machado.

Todos os gestos da incredulidade
Introdução
            Eu não compro Baton, não votaria no Obama, não gosto de futebol, e acredito que o uso da terceira pessoa na dissertação é só mais uma marca do racionalismo excessivo e da impassibilidade das relações interpessoais atuais. Seria loucura escrever diferente do recomendado, do previsível, do normal. Seria acusado, mas não seria covarde. De fato, o melhor a fazer é tentar entender por que muitos não o fariam, por que a imaginação e a criatividade entraram em falência e levaram junto um pouco da natureza humana.
Conclusão
            Torna-se evidente, portanto, que o medo da quebra da normalidade pode até ser normal naqueles que estão tão afogados em suas culturas que se alienaram em realidades que desejam ser imutáveis. Contudo, é dever dos “loucos” os salvarem, emergindo de novo sua condição humana, sua capacidade de colocar o mundo a sua volta em crise, insatisfazer-se. A realidade contemporânea, entretanto, conta com problemas que tornam essa ferida mais difícil de cicatrizar, como o individualismo. O irônico é ver aqueles que defendem essa ação coletiva para retorno da criatividade escreverem na 3a pessoa do singular: são as contradições de uma sociedade que mantem seu lado humano vendado, e só enxerga quando quer. Parafraseando Machado de Assis: “Abane a cabeça, leitor”.

A informação cultural como arremate
Para fechar o texto, o autor cita uma frase de Machado de Assis, em que há a ideia de passividade: o leitor abanando a cabeça (dizendo sim). Trata-se de uma alusão à sociedade, que “abana a cabeça” para o que lhe é imposto.
Parafraseando Machado de Assis: “Abane a cabeça, leitor”.

A minha interpretação sobre o último período fez sentido, porém, após consultar Dom Casmurro, livro de onde foi retirada a citação de Machado, vejam o que encontrei:

Capítulo XLV
Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora esse livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes [...]

Agora entendo que o objetivo do autor foi diferente do que eu apresentei na postagem de setembro. Abanar a cabeça, dentro do contexto, não significa passividade, não quer dizer “sim” às imposições sociais. Pelo contrário. O autor cita Machado para dizer para o leitor: “Diga não às imposições, desacredite”. Desse mesmo trecho, foi retirado o título da redação, o que possibilitou que início e fim se completassem.
Muito legal!!

Acho importante dizer que a interpretação primeira não deve ser considerada errada. Se o sentido de um texto se completa com o receptor, a mensagem pode ser desenhada de maneira diferente do que objetivou o escritor.
Lembro-me de um professor da faculdade um dia ter falado sobre essa questão citando a música “O mundo é um moinho”, do Cartola. Ninguém precisa conhecer o contexto, saber a história que motivou o autor a escrever a letra para apreciar a música e interpretar da maneira que achar conveniente, de acordo com experiência de vida própria. A música, na verdade, foi escrita pelo compositor para sua filha que, muito jovem, quis sair de casa. É interessante saber esse contexto e conhecer o objetivo de Cartola com a composição, porém quem não conhece a história pode interpretar a música de outras formas. E não há certo e errado, há, apenas, construções diferentes.

Bom... mas foi ótimo ter entendido o objetivo do autor do texto. J