sábado, 3 de setembro de 2011

Redação do post "Ousadia na dissertação" na íntegra. Comentários na próxima postagem

Todos os gestos da incredulidade
Eu não compro Baton, não votaria no Obama, não gosto de futebol, e acredito que o uso da terceira pessoa na dissertação é só mais uma marca do racionalismo excessivo e da impassibilidade das relações interpessoais atuais. Seria loucura escrever diferente do recomendado, do previsível, do normal. Seria acusado, mas não seria covarde. De fato, o melhor a fazer é tentar entender por que muitos não o fariam, por que a imaginação e a criatividade entraram em falência e levaram junto um pouco da natureza humana.
Questão primordial é entender que na contemporaneidade esse comodismo, que sempre existiu, agravou-se devido a certa falência de utopias e ideologias do último século. Nem as ideias de Marx, ou a tentativa de Lênin trouxeram a igualdade, a ONU não atendeu o desejo de nenhuma Miss, o “americacan way of life” trouxe também a aspirina e o prozac. Essa conjuntura cria um certo pessimismo e corrobora para dificultar o vislumbramento de mudanças na sociedade, tornando o indivíduo acomodado e passivo. É mais fácil incluir-se na normalidade, sem taxar o “sistema”, a ser taxado como “louco” e decepcionar-se ao tentar.
Espantoso é perceber que essa taxação, e o receio dela, sempre foi a regra. Quando Darwin propôs a evolução, ou Freud, a interpretação dos sonhos, ambos receberam o mesmo título: loucos. Sem dúvida, quando a sociedade se depara com conjecturas e posturas que põem em xeque seus modos de agir e de penar é compreensível que ocorra certo medo e aversão. O equívoco dessa postura está, no entanto, em se ignorar que a inventividade e a crítica estão na base da evolução das sociedades, só a imaginação permite a criação e a inovação.
O problema maior não é as novidades se tornarem rarefeitas, e sim que ao fazer isso, abdicar do poder de enlouquecer-se contra a cosmovisão vigente, o indivíduo abdica de sua própria racionalidade. O homem é um ser social que transforma a natureza com seu trabalho (mental e braçal), o que exige inferência, senso crítico. Para isso, é necessário que se tente enxergar fatos por outras perspectivas, que exista inferência e crítica ao que apenas os olhos vêem. Sempre foram poucos os que conseguiram fazer isso, Rousseau, Kant, Nietsche, mas foram os desvarios deles que influenciaram diretamente a formação da sociedade ocidental atual.
Torna-se evidente, portanto, que o medo da quebra da normalidade pode até ser normal naqueles que estão tão afogados em suas culturas que se alienaram em realidades que desejam ser imutáveis. Contudo, é dever dos “loucos” os salvarem, emergindo de novo sua condição humana, sua capacidade de colocar o mundo a sua volta em crise, insatisfazer-se. A realidade contemporânea, entretanto, conta com problemas que tornam essa ferida mais difícil de cicatrizar, como o individualismo. O irônico é ver  aqueles que defendem essa ação coletiva para retorno da criatividade escreverem na 3a pessoa do singular: são as contradições de uma sociedade que mantem seu lado humano vendado, e só enxerga quando quer. Parafraseando Machado de Assis: “Abane a cabeça, leitor”.


Fonte: Guia do Estudante - Caderno de Redação