domingo, 9 de outubro de 2011

Redação exemplar - Tema: A internet como fonte de informação

A redação transcrita a seguir é sobre o tema “A internet como fonte de informação” e foi escrita para o vestibular Fuvest 2008.
Já citei a conclusão desse texto no post “Enfim, acabei a redação” - e publico-o, agora, na íntegra, para avaliação aprofundada de todos os parágrafos.
Nesse artigo, a redação; no próximo, os comentários.
Informações “off line”
O advento e a evolução dos meios de comunicação, aliados a sua ampla distribuição, transformaram o mundo em uma aldeia global, na qual os fluxos de informação espalham-se livremente. Manter-se atualizado e deter conhecimento dos mais variados tipos é, e sempre foi, extremamente útil para a formação de uma identidade e para o desenvolvimento de um senso crítico. Entretanto, antes de buscar informações, é imprescindível criar filtros  capazes de discernir as realmente úteis e construtivas das especulativas e falaciosas.
Até a popularização da internet, o conhecimento era buscado predominantemente nos livros. Por meio deles, podia-se imediatamente checar se o autor ( e por extensão tudo aquilo veiculado por ele) era digno de confiança ou não. Contudo, vive-se hoje a era digital, na qual as informações encontraram na “Web” um meio rápido e prático de se difundirem. Nesse contexto, qualquer usuário torna-se um escritor em potencial, livre para publicar o que bem entender, “como se opiniões não precisassem se basear no rigor científico antes de serem emitidas”, conforme elucida Stephen Kanitz, colunista da revista “Veja”.
Vale ressaltar, entretanto, que somente demonizar a internet seria uma postura injusta e unilateral. Por meio dela, muitos dados valiosos chegam ao alcance das mais variadas populações, como, por exemplo, com a criação da Biblioteca Digital Mundial, uma iniciativa da ONU da qual o Brasil fara parte. O acervo digital contará com mapas, fotografias, manuscritos e textos em sete idiomas. Em tempo, a internet – devido a sua agilidade – é o único meio de comunicação atual capaz de administrar a dinamicidade com que as notícias surgem ao redor do mundo. De acordo com Zygmunt Bauman, em seu ensaio a respeito da modernidade líquida: “...a transmissão das notícias é a celebração constante e diariamente repetida da enorme velocidade da mudança...”.
Discutir a validade do mundo virtual como meio de propagação de conhecimento não se mostra o mais adequado para o momento, dado que a tendência da internet é cada vez angariar mais usuários. Sensato seria garantir instrução suficiente às crianças e aos jovens para que eles, por conta própria, pudessem desenvolver mecanismos de seleção de tudo aquilo que recebem do meio externo. Dessa forma, informações falsas ou caluniosas seriam automaticamente arrastadas para a lixeira.
                 Fonte: Fuvest – http://www.fuvest.br/vest2008/bestred/bestred.stm

sábado, 8 de outubro de 2011

Mudanças na redação do Enem - Matéria Jornal Nacional

Alguns alunos vieram me relatar essa semana o que foi noticiado no Jornal Nacional sobre as alterações na redação do Enem. Recebi e-mails de pessoas aflitas, dizendo que agora só iriam poder escrever 8 linhas na redação, e não mais 25, como estavam acostumadas.
Diante dessa interpretação equivocada sobre a matéria do JN, escrevo esse artigo para falar sobre o que, de fato, foi modificado.

Seguem as explicações:
1.Número mínimo de linhas à agora, 8 linhas é o mínimo exigido para a redação ser considerada válida.
Gente, até o ano passado, o candidato deveria escrever, no mínimo, 11 linhas.  Ou seja, houve uma redução de 3 linhas para validação do texto.
O que isso muda na prática? Absolutamente nada! O candidato poderá continuar escrevendo o texto em 25 linhas. A alteração referiu-se apenas ao mínimo exigido para que o texto não seja considerado insuficiente.
Acho bem difícil defender argumentos e propor soluções em tão pouco espaço, por isso, sugiro que quem odeia redação e ficou feliz, achando que agora vai ser moleza, pense no outro lado da questão: para fazer uma redação excelente em 8 linhas é preciso ter não só um ótimo preparo em termos de argumentação, mas também um grande poder de concisão. E isso não é fácil.
O que vejo por trás dessa mudança é o seguinte: o Enem não gosta de textos longos. Dessa forma, sejam objetivos!! Mas não fiquem nas 8 linhas, por favor!! Pode ser interessante fazer apenas dois parágrafos de desenvolvimento.

2.Cópia dos textos de apoio à para efeito do número mínimo de linhas, serão desconsideradas as que contiverem cópias de trechos dos textos de apoio.
Essa informação também estava na matéria do JN e não apresenta nenhuma novidade. Os textos de apoio servem apenas para que o candidato seja motivado a refletir sobre o assunto e, de forma alguma, devem ser transcritos na redação.

3.Critérios de avaliação à até o ano passado, somente se houvesse diferença de 5 pontos na nota dada por cada corretor, o texto era corrigido por um supervisor. Agora, 3 pontos de diferença entre os avaliadores já é considerado discrepância.
Essa mudança foi muito bem-vinda, pois a margem de erro na nota será menor.

É isso! Havendo mais alguma dúvida, escrevam nos comentários.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Análise do texto “Diversidade não é anulação” – A contra argumentação

O texto publicado na última postagem foi produzido com o objetivo de mostrar, na prática, estratégias de contra argumentação. Em todos os parágrafos, parte-se da ideia alheia para que seja sustentada uma opinião contrária.
Já comentei por aqui a importância desse recurso, porém não é recomendável que ele seja utilizado em demasia. Na redação apresentada, essa estratégia foi bastante explorada por uma questão didática, já que o objetivo dessa postagem é mostrar justamente como se pratica a contra argumentação.
Para a produção do texto, foram utilizados como base depoimentos de pessoas que falavam sobre os efeitos negativos da globalização em nossa cultura. Alguns citaram que ela está sendo prejudicial para a língua portuguesa, porque estamos usando muitos termos estrangeiros. Outros falaram que esse contato estreito com outras culturas tem sido péssimo para a música brasileira, pois os jovens hoje estão esquecendo suas raízes culturais e valorizando somente as músicas americanas...Outros falaram que, com essa maior proximidade entre nações, os brasileiros estavam se tornando menos patriotas e querendo viver em outros locais etc etc etc.
 Acho que todos os aspectos apresentados nesses depoimentos, a meu ver, fazem sentido por um lado e não fazem por outro. Mas... como o objetivo do texto foi contra argumentar, todas essas ideias foram refutadas e o oposto delas, comprovado.

 Tema: A influência da globalização na cultura brasileira
Reparem que o texto foi todo construído por meio de negativas.

Projeto de texto
Introdução: negar que a globalização é ruim para a cultura brasileira, citando 3 temas centrais: língua, música, emigração.
Há certo radicalismo quando se fala em globalização e cultura nacional, pois existe a crença de que, por meio desse processo, a identidade de um povo pode ser deteriorada. No Brasil, citam-se as transformações linguísticas, o alto número de emigrantes e a influência musical, principalmente a norte-americana, como consequências nocivas da globalização. Trata-se de uma visão equivocada, e a superficialidade desse pensamento pode ser comprovada quando se analisa a questão de maneira mais complexa.

D1: A língua portuguesa – a utilização de expressões estrangeiras não é negativa, uma vez que se trata de um processo natural de assimilação. A língua é viva e não temos controle sobre ela.
A língua falada em um país é uma das principais manifestações da identidade de um povo. E muitos consideram que o contato com produtos importados, com tecnologias estrangeiras tem sido danoso porque o brasileiro estaria substituindo vocábulos próprios pelos estrangeiros. A influência linguística existe, mas não deve ser considerada boa nem ruim, apenas uma consequência natural, pois a língua se transforma ao longo do tempo. A palavra deletar, por exemplo, que foi incorporada ao vocabulário português, não deve ser entendida como uma anulação identitária, mas como uma assimilação natural.

D2: Emigração – A causa dessa situação são os problemas sociais e não a globalização. Brasileiros saem do país porque buscam as condições dignas que, muitas vezes, não conseguem ter no próprio país. Portanto, a relação entre patriotismo, emigração e globalização é falaciosa.
Da mesma forma, tendo em vista a situação precária de muitos brasileiros devido ao quadro social do país, não se pode dizer que as pessoas estão procurando viver em outros locais por conta da globalização. Não há relação de causa e efeito quanto a isso, pois se há, no Brasil, o desejo de emigrar é porque as pessoas estão procurando melhores condições de vida, o que, infelizmente, o Brasil não pode garantir a muitos.

D3: Música – Apreciar músicas não nacionais não significa perda de identidade, mas sim diversidade.
Deve-se, portanto, entender as possibilidades oferecidas pela globalização como naturais. Na música, por exemplo, não dá para dizer que a influência do jazz foi ruim para a Bossa Nova. Frank Sinatra e Tom Jobim, há pouco mais de cinquenta anos, fizeram uma parceria e não houve anulação cultural para nenhuma das partes. Hoje, no Brasil, temos samba e música eletrônica, temos um Rock in Rio com Axé e Stevie Wonder. Isso é a prova de que a globalização gerou diversidade e não substituição.

Conclusão: Reafirmação da ideia central do texto + retorno ao título.
As trocas culturais que estão ocorrendo no mundo moderno influenciam sim a identidade cultural brasileira, mas de forma alguma essa influência deve ser vista como prejudicial. O brasileiro não abriu mão de seu país, de sua música, de sua língua porque tem contato estreito com outras culturas. Pelo menos, em se tratando de identidade cultural, diversidade não significou anulação.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Mais uma redação para análise

Nessa postagem, a redação; na próxima, os comentários.

Tema: A influência da globalização na cultura brasileira
                                       
                                                        Diversidade não é anulação

            Há certo radicalismo quando se fala em globalização e cultura nacional, pois existe a crença de que, por meio desse processo, a identidade de um povo pode ser deteriorada. No Brasil, citam-se as transformações linguísticas, o alto número de emigrantes e a influência musical, principalmente a norte-americana, como consequências nocivas da globalização. Trata-se de uma visão equivocada, e a superficialidade desse pensamento pode ser comprovada quando se analisa a questão de maneira mais complexa.
            A língua falada em um país é uma das principais manifestações da identidade de um povo. E muitos consideram que o contato com produtos importados, com tecnologias estrangeiras tem sido danoso porque o brasileiro estaria substituindo vocábulos próprios pelos estrangeiros. A influência linguística existe, mas não deve ser considerada boa nem ruim, apenas uma consequência natural, pois a língua se transforma ao longo do tempo. A palavra deletar, por exemplo, que foi incorporada ao vocabulário português, não deve ser entendida como uma anulação identitária, mas como uma assimilação natural.
            Da mesma forma, tendo em vista a situação precária de muitos brasileiros devido ao quadro social do país, não se pode dizer que as pessoas estão procurando viver em outros locais por conta da globalização. Não há relação de causa e efeito quanto a isso, pois se há, no Brasil, o desejo de emigrar é porque as pessoas estão procurando melhores condições de vida, o que, infelizmente, o Brasil não pode garantir a muitos.
            Deve-se, portanto, entender as possibilidades oferecidas pela globalização como naturais. Na música, por exemplo, não dá para dizer que a influência do jazz foi ruim para a Bossa Nova. Frank Sinatra e Tom Jobim, há pouco mais de cinquenta anos, fizeram uma parceria e não houve anulação cultural para nenhuma das partes. Hoje, no Brasil, temos samba e música eletrônica, temos um Rock in Rio com Axé e Stevie Wonder. Isso é a prova de que a globalização gerou diversidade e não substituição.
            As trocas culturais que estão ocorrendo no mundo moderno influenciam sim a identidade cultural brasileira, mas de forma alguma essa influência deve ser vista como prejudicial. O brasileiro não abriu mão de seu país, de sua música, de sua língua porque tem contato estreito com outras culturas. Pelo menos, em se tratando de identidade cultural, diversidade não significou anulação.

sábado, 1 de outubro de 2011

Todos os gestos de incredulidade - Voltando à conclusão

No dia 01/09/2011, a minha postagem teve como título “Ousadia na dissertação” e eu apresentei a introdução e a conclusão de uma redação muito original feita por um vestibulando.
Como último período da conclusão, o autor citou Machado de Assis e eu apresentei a minha interpretação para esse trecho. Vejam novamente o início e o fim desse texto e também a observação que fiz sobre a citação de Machado.

Todos os gestos da incredulidade
Introdução
            Eu não compro Baton, não votaria no Obama, não gosto de futebol, e acredito que o uso da terceira pessoa na dissertação é só mais uma marca do racionalismo excessivo e da impassibilidade das relações interpessoais atuais. Seria loucura escrever diferente do recomendado, do previsível, do normal. Seria acusado, mas não seria covarde. De fato, o melhor a fazer é tentar entender por que muitos não o fariam, por que a imaginação e a criatividade entraram em falência e levaram junto um pouco da natureza humana.
Conclusão
            Torna-se evidente, portanto, que o medo da quebra da normalidade pode até ser normal naqueles que estão tão afogados em suas culturas que se alienaram em realidades que desejam ser imutáveis. Contudo, é dever dos “loucos” os salvarem, emergindo de novo sua condição humana, sua capacidade de colocar o mundo a sua volta em crise, insatisfazer-se. A realidade contemporânea, entretanto, conta com problemas que tornam essa ferida mais difícil de cicatrizar, como o individualismo. O irônico é ver aqueles que defendem essa ação coletiva para retorno da criatividade escreverem na 3a pessoa do singular: são as contradições de uma sociedade que mantem seu lado humano vendado, e só enxerga quando quer. Parafraseando Machado de Assis: “Abane a cabeça, leitor”.

A informação cultural como arremate
Para fechar o texto, o autor cita uma frase de Machado de Assis, em que há a ideia de passividade: o leitor abanando a cabeça (dizendo sim). Trata-se de uma alusão à sociedade, que “abana a cabeça” para o que lhe é imposto.
Parafraseando Machado de Assis: “Abane a cabeça, leitor”.

A minha interpretação sobre o último período fez sentido, porém, após consultar Dom Casmurro, livro de onde foi retirada a citação de Machado, vejam o que encontrei:

Capítulo XLV
Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora esse livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes [...]

Agora entendo que o objetivo do autor foi diferente do que eu apresentei na postagem de setembro. Abanar a cabeça, dentro do contexto, não significa passividade, não quer dizer “sim” às imposições sociais. Pelo contrário. O autor cita Machado para dizer para o leitor: “Diga não às imposições, desacredite”. Desse mesmo trecho, foi retirado o título da redação, o que possibilitou que início e fim se completassem.
Muito legal!!

Acho importante dizer que a interpretação primeira não deve ser considerada errada. Se o sentido de um texto se completa com o receptor, a mensagem pode ser desenhada de maneira diferente do que objetivou o escritor.
Lembro-me de um professor da faculdade um dia ter falado sobre essa questão citando a música “O mundo é um moinho”, do Cartola. Ninguém precisa conhecer o contexto, saber a história que motivou o autor a escrever a letra para apreciar a música e interpretar da maneira que achar conveniente, de acordo com experiência de vida própria. A música, na verdade, foi escrita pelo compositor para sua filha que, muito jovem, quis sair de casa. É interessante saber esse contexto e conhecer o objetivo de Cartola com a composição, porém quem não conhece a história pode interpretar a música de outras formas. E não há certo e errado, há, apenas, construções diferentes.

Bom... mas foi ótimo ter entendido o objetivo do autor do texto. J