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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Site InfoEnem e prova Enem 2012


Olá!

O site InfoEnem publicou uma lista com blogs recomendáveis para estudar redação. Nós estamos lá, junto a mais alguns outros sítios bem legais. Veja aqui.

Os responsáveis pelo site me passaram um link para download da prova do Enem 2012 e acho que pode interessar. Para ter acesso, clique aqui.

Espero que seja útil aos vestibulandos.

Um abraço.
Lygia Maria


domingo, 5 de fevereiro de 2012

Gabarito e explicação – questão modelo Enem

                             Imagem retirada do site informacaocontabil.blogspot.com

Obrigada a todos pela participação na questão publicada no artigo anterior.

Vamos agora às explicações.

Gabarito: letra C

Habilidade trabalhada na questão: Identificar as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.


Explicações:

Letra a: O uso do “r” em vez do “l”, no último texto, em “Frechada”, é uma marca característica de produções textuais pertencentes ao gênero do texto 2.

Essa não é uma opção adequada, pois os textos 1 e 2 pertencem ao gênero música. E a troca do “r” pelo “l” não é uma característica presente em todos os textos desse gênero.

Letra b: O uso do “inté” em vez de “até” constitui uma marca linguística errada, inadmissível no falar do brasileiro.

Não se pode dizer que se trata de um erro. Temos em “inté” uma variação do português padrão.

Letra c: Há, nos dois textos, marcas linguísticas que exemplificam as variações – sociais e regionais – do português padrão.

É preciso ir para a prova do Enem com esse pensamento. O português padrão é o da gramática, porém não podemos dizer que ele é a única forma de utilizar a linguagem. Há variações a esse uso normativo, como os exemplos apresentados. Resposta correta.

Letra d: Os dois textos pertencem ao gênero “licença poética”.

Licença poética não é um gênero.

Letra e: No texto 1, a alternância de “lh” por “i”, como ocorre em “véio”, já é considerado como pertencente à variante padrão da língua portuguesa.

Não. A norma gramatical não “acolhe” casos como esse.  

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Nas últimas provas do Enem, esse conteúdo esteve presente. Acredito que também estará no próximo exame.

Se alguma dúvida permanecer, postem nos comentários.

Até mais!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Questão de Língua Portuguesa estilo Enem - Quem arrisca?

Olá!

Hoje a proposta por aqui será um pouco diferente. 

Tendo em vista a frequência com que se têm cobrado no Enem questões relacionadas a marcas e variedades linguísticas, achei importante fazer uma postagem a respeito.

Segue uma questão que abarca essas habilidades. Não inseri gabarito justamente para que, depois, possamos conversar a respeito. Não fiquem inibidos e postem nos comentários a avaliação que fizerem.

Um abraço!

Leia os textos 1 e 2 e responda à questão.

TEXTO 1
A Feira de Caruaru

A Feira de Caruaru,
Faz gosto a gente vê.
De tudo que há no mundo,
Nela tem pra vendê,
Na feira de Caruaru.

(...)

Tem loiça, tem ferro véio,
Sorvete de raspa que faz jaú,
Gelada, cardo de cana,
Fruta de paima e mandacaru.
Bunecos de Vitalino,
Que são cunhecidos inté no Sul,
De tudo que há no mundo,
Tem na Feira de Caruaru.

                               Luíz Gonzaga

TEXTO 2

Tiro Ao Álvaro (trecho)

De tanto levar
Frechada do teu olhar
Meu peito até
Parece sabe o quê?
Táuba de tiro ao Álvaro
Não tem mais onde furar
Não tem mais!...



1.Considerando seu conhecimento sobre gêneros textuais e variedades linguísticas, assinale a opção correta.

a)O uso do “r” em vez do “l”, no último texto, em "Frechada", é uma marca linguística característica de  produções textuais pertencentes ao gênero do texto 2.

b)O uso de “inté” em vez de “até” constitui uma marca linguística errada, inadmissível no falar do brasileiro.

c) Há, nos dois textos, marcas linguísticas que exemplificam as variações – sociais e regionais – do português padrão.

d) Os dois textos pertencem ao gênero “licença poética”.

e) No texto 1, a alternância de “lh” por “i”, como ocorre em “véio”, já é considerado como pertencente à variante padrão da língua portuguesa.



Imagem retirado do blog odardomeu.blogspot.com

sábado, 17 de setembro de 2011

As últimas da UERJ

 A PALAVRA (Rubem Braga)

Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito - como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento - e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven - e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído - talvez palavras de algum poeta antigo - foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo, iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.

Em um momento tão estressante como a prova de vestibular, ler um texto desses pode fazer o candidato sorrir um pouco.
E as questões relacionadas não estavam difíceis.

Questão 10 – Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.
O ofício a que Rubem Braga se refere é o seu próprio, o de escritor. Para caracterizá-lo, além do adjetivo “imprudente”, ele recorre a uma metáfora: “viver em voz alta”.
O sentido dessa metáfora, relativa ao ofício de escrever, pode ser entendido como:
(A)  Superar conceitos antigos
(B)  Prestar atenção aos leitores
(C)  Criticar prováveis interlocutores
(D)  Tornar públicos seus pensamentos
Essa estava moleza!! Se o autor é escritor, seus pensamentos se materializam na escrita, e as pessoas que o leem podem acabar, vez ou outra, sendo feridas por conta de alguma coisa que ele tenha divulgado em seus textos. Ele percebe que isso acontece quando se depara com alguns olhares atravessados no dia-a-dia. Letra D.

Questão 11 – Alguma coisa que eu disse distraído – talvez palavras de algum poeta antigo – foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém.
O cronista revela que sua fala ou escrita pode conter algo escrito por “algum poeta antigo”. Ao fazer essa revelação, o cronista se refere ao seguinte recurso:
(A)  Polissemia
(B)  Pressuposição
(C)  Exemplificação
(D)  Intertextualidade
Intertextualidade é quando fazemos conexões entre textos. Por exemplo, todo mundo que vê o quadro abaixo, do Botero, (aliás, vale a pena conferir toda a sua obra... ele é maravilhoso!!!) acha certa graça. E isso acontece porque a pessoa faz a conexão com o texto de Da Vinci. Isso se chama intertextualidade.

Há uma música do Chico Buarque, chamada Bom Conselho, em que também ocorrem essas pontes entre textos. Veja:
“Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir
Que a dor não passa.

Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado
Quem espera nunca alcança”.
Acho que todo mundo quando lê esse texto se lembra dos ditados populares. Isso também é intertextualidade.
Na verdade, muito do que dizemos no dia-a-dia pode estar conectado a alguma coisa que lemos ou ouvimos em algum tempo. Ó: intertextualidade.
Então, quando o cronista diz que pode ter dito palavras de algum poeta, o cronista faz referência à intertextualidade.
Pronto! Letra D.

Questão 12 – O episódio do canário traz uma contribuição importante para o sentido do texto, ao estabelecer uma analogia entre a palavra do escritor e a música assobiada pela amiga.
A inserção desse episódio no texto reforça a seguinte ideia:
(A)  A intolerância leva o artista ao isolamento
(B)  A arte atinge as pessoas de modo inesperado
(C)  A solidão é remediada com soluções artísticas
(D)  A profissão envolve o artista em conflitos desnecessários
Assim como o assobio da mulher, sem nenhum propósito, fez com que o canário cantasse, as palavras do escritor, também sem nenhum propósito, podem encantar ou desencantar alguém. Ou seja, a arte atinge as pessoas de modo inesperado. Letra B!
Tranquila também!

Questão 13 – Toda a indagação do cronista acerca da palavra se baseia na diferença entre a importância que ela pode ter, por um lado, para quem escreve e, por outro, para quem a lê.
O par de vocábulos que melhor exemplifica essa diferença no texto é:
(A)  Esqueci (l.9) – feri (l.1)
(B)  Ofício (l.3) – consolo (l.4)
(C)  Espontânea (l. 8) – secreta (l. 16)
(D)  Reconciliar (l.5) – despertar (l.18)
Para os preguiçosos, uma questão como essa pode perturbar um pouco. É preciso analisar todas as opções para identificar o par que representa a importância da palavra para quem escreve e para quem lê.
A letra A é a que faz sentido. Sabe aquela história de que quem bate esquece, mas quem apanha não? (Acabei fazendo conexão entre dois textos: intertextualidade de novo!). Pois é... o par “esquecer – ferir” acaba se relacionando a essa ideia. Às vezes o escritor diz alguma coisa que considera sem a mínima importância, uma palavra que diz distraído e depois até esquece. Já quem recebe tal palavra pode ser tocado por ela, de forma positiva ou negativa. A palavra pode fazer a pessoa se reconciliar consigo mesma ou pode ferir.
Esse é o raciocínio!! Mas para chegar a ele eu li várias vezes todas as opções apresentadas.

Questão 14 – Às vezes, também (l.4)
Ao estabelecer a coesão entre os dois primeiros parágrafos, a palavra “também”, nesse contexto, expressa determinado sentido.
Considerando esse sentido, “também” poderia ser substituído pela seguinte expressão:
(A)  Desse modo
(B)  Por outro lado
(C)  Por conseguinte
(D)  Por consequência
Errou essa questão quem não voltou ao texto para fazer a análise. Sem uma releitura, a tendência é marcar a letra A – desse modo -, pois é a expressão mais parecida com “também”. Acho até que essa opção não estava na letra A à toa. A emboscada serviu para os apressados.
Analisando os parágrafos: no primeiro, o tema são as pessoas que são feridas com as palavras do autor. No segundo parágrafo, por outro lado, o tema são as pessoas que acabaram se reconciliando consigo mesmas devido às palavras do autor.
O “também”, nesse caso, tem o sentido de “por outro lado”, “ao contrário”. Letra B!

Questão 15 – O final do texto revela uma reflexão do escritor acerca do poder da sua escrita, a partir da menção a uma princesa e a um povo.
Essa menção sugere, principalmente, que o escritor deseja que suas palavras tenham o poder de:
(A)  Desfazer as ilusões antigas
(B)  Permear as classes sociais
(C)  Ajudar as pessoas discriminadas
(D)  Abolir as hierarquias tradicionais
Essa foi a questão que mais me deu trabalho. Fiquei muito em dúvida entre as letras A e B. Explico:
Apesar de haver a referência ao sorriso da princesa deixando o povo mais feliz, o que leva à marcação da letra B (gabarito oficial), pensei em mais uma hipótese.
Eu entendo também que a princesa sorrindo, e toda a felicidade do seu povo, representam o encantamento de uma só pessoa, como se alguém passasse a ser totalmente transformado por uma palavra. Para mim, o último parágrafo pode sugerir que o escritor deseja que suas palavras tenham o poder de transformar o dia, a vida de alguém, desfazendo antigas ilusões.
Bom, o gabarito não vai mudar. Isso já foi divulgado no site. A resposta é a B: o leitor deseja permear as classes sociais com as suas palavras.
E aqui termina o momento UERJ!
Espero que os comentários tenham ajudado.
Até!!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Comentários UERJ - o texto de Arnaldo Antunes


A origem da poesia
A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem.
Talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem verbal deixou de ser poesia. Ou: qual a origem do discurso não-poético, já que, restituindo laços mais íntimos entre os signos e as coisas por eles designadas, a poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas.
Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história.
A manifestação do que chamamos de poesia hoje nos sugere mínimos flashbacks de uma possível infância da linguagem, antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando essas duas metades — significante e significado.
Houve esse tempo? Quando não havia poesia porque a poesia estava em tudo o que se dizia? Quando o nome da coisa era algo que fazia parte dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, sexuais, guerreiras?
Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado.
Lembro-me de ter lido, certa vez, um comentário de Décio Pignatari, em que ele chamava a atenção para o fato de, tanto em chinês como em tupi, não existir o verbo ser, enquanto verbo de ligação. Assim, o ser das coisas ditas se manifestaria nelas próprias (substantivos), não numa partícula verbal externa a elas, o que faria delas línguas poéticas por natureza, mais propensas à composição analógica.
Mais perto do senso comum, podemos atentar para como colocam os índios americanos falando, na maioria dos filmes de cowboy — Eles dizem "maçã vermelha", "água boa", "cavalo veloz"; em vez de "a maçã é vermelha", "essa água é boa", "aquele cavalo é veloz". Essa forma mais sintética, telegráfica, aproxima os nomes da própria existência — como se a fala não estivesse se referindo àquelas coisas, e sim apresentando-as (ao mesmo tempo em que se apresenta).
No seu estado de língua, no dicionário, as palavras intermediam nossa relação com as coisas, impedindo nosso contato direto com elas. A linguagem poética inverte essa relação pois vindo a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.
[...]
Já perdemos a inocência de uma linguagem plena assim. As palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da vida. Mas temos esses pequenos oásis — os poemas — contaminando o deserto da referencialidade.
Arnaldo Antunes
Esse foi o texto que serviu como base para a realização de 7 questões da prova da UERJ. Apesar de interessante, não o considero fácil. Eu leria esse texto umas duas vezes, faria marcações, anotações ao lado e, só depois, começaria a fazer as questões.
E vamos a elas!
Questão 3 – A poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas.
A comparação entre a poesia e outros usos da linguagem põe em destaque a seguinte característica do discurso poético:
(A)  Revela-se como expressão subjetiva
(B)  Manifesta-se na referência ao tempo
(C)  Afasta-se das praticidades cotidianas
(D)  Conjuga-se com necessidades concretas

O gabarito divulgado dessa questão é a letra C. Se eu tivesse feito essa prova, também teria marcado essa opção, no entanto, não concordo com ela. Aliás, eu discordo de todas as opções apresentadas.
Sobre a opção A: primeiro, é importante que se entenda o que significa subjetividade.
Subjetivo: 1.Pertencente ou relativo ao sujeito. 2.Que está somente no sujeito, no eu; que passa ou existe no espírito. 3. Que exprime ou manifesta apenas as ideias ou preferências da própria pessoa; pessoal, individual.
Dicionário Michaelis on line
Agora, é possível perceber que a letra A não é adequada, pois o discurso poético não se revela apenas como expressão pessoal. A poesia também está relacionada ao mundo exterior, ao objeto, ou seja, se revela como expressão objetiva também. Quando o autor cita os filmes de cowboy e fala, por exemplo, da “maçã vermelha” como um exemplo de linguagem poética, fica claro que não se trata de uma referência subjetiva, trata-se de referência a um objeto externo à pessoa.
O autor apresenta a ideia de que em “maçã vermelha” a linguagem é mais poética do que em “Essa maçã é vermelha”. Neste último formato, a estrutura já estaria mais relacionada aos discursos “modernos”, que precisam seguir um formato para atender às necessidades sociais.

Sobre a letra B – Manifesta-se na referência ao tempo.
O fato de haver no texto a ideia de que a poesia relaciona-se à origem da linguagem, a um tempo passado, não significa que a característica do discurso poético seja manifestar-se na referência ao tempo. A poesia se manifesta na referência às coisas – objetivas e subjetivas.

Sobre a letra C – Afasta-se das praticidades cotidianas – Alternativa considerada correta pela banca.
Como disse no início, não concordo com essa resposta e as observações apresentadas sobre as letras a e b já antecipam minha explicação. O fato de a poesia ser anterior ao uso que se faz da palavra  em situações mais padronizadas de comunicação, como os discursos, os telefonemas etc, não indica, a meu ver, que ela se afaste das praticidades cotidianas. Segundo as ideias do texto, talvez ela se afaste da prática do mundo de hoje, do cotidiano que exige um certo padrão estrutural de comunicação, mas não das práticas cotidianas em geral.
O trecho a seguir confirma o que estou dizendo:
“Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história”.
É claro que, como eu também já disse, marcaria essa opção se tivesse feito a prova, pois, considerando o trecho utilizado como base para a pergunta, essa me parece a melhor alternativa. Isso quer dizer que me pareceu um dos exemplos de questão em que devemos marcar a mais adequada... e não exatamente a correta.
Acho que vou enviar um e-mail para o próprio Arnaldo Antunes e perguntar que alternativa ele marcaria nessa questão. Seria interessante saber a sua opinião. Vou tentar o contato.
Sobre a letra D – Conjuga-se com necessidades concretas
Essa não poderia ser, já que o discurso poético não está relacionado apenas às necessidades concretas.
Esse trecho me ajuda na explicação:
“[...]Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, sexuais, guerreiras?”.

Questão 4 – Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico.
Neste fragmento, a expressão em destaque é empregada para formar um conhecido recurso de argumentação.
Esse recurso pode ser definido como:
(A)  admitir uma hipótese para depois discuti-la
(B)  retomar uma informação para depois criticá-la
(C)  relativizar um conceito para depois descrevê-lo
(D)  apresentar uma opinião para depois sustentá-la
É preciso ler novamente todo o trecho para responder a essa questão.
“Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado”.Sem retomar a leitura do texto, a tendência é marcar a opção C, pois o “pode ser” confere relativização à ideia apresentada. Ou seja, não se está dizendo “Essas suposições SÃO utópicas”. O “pode ser” relativiza a argumentação.
Porém...
Não é essa a análise que deve ser feita. Lendo-se o trecho completo, o que se percebe é que o “pode ser” é utilizado para admitir que existe a possibilidade de as ideias apresentadas serem utópicas, porém, mais a frente, essa ideia é discutida – e refutada.
“Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado”.
Então, resposta correta: letra A.

Questão 5: Mais perto do senso comum
A expressão que inicia o trecho transcrito acima introduz uma comparação em relação ao comentário anterior, feito por Décio Pignatari.
O emprego da expressão comparativa revela que o autor considera o exemplo dos filmes de cowboy como algo que teria a seguinte caracterização:
(A)  muito complexo
(B)  menos elaborado
(C)  pouco importante
(D)  bastante diferente
Retomando a leitura dos dois parágrafos em questão, percebe-se que o exemplo dos filmes de cowboy foi apresentado para esclarecer a ideia apresentada por Décio Pignatari.
Quem está acostumado a fazer redações sabe que o uso de exemplos é de extrema importância para tornar o tema que está sendo desenvolvido mais concreto, mais real, menos teórico. E foi exatamente essa a função do exemplo dos filmes de cowboy no texto.
Dessa maneira, a resposta é a letra B. Por meio de uma informação menos elaborada, menos teórica, mais perto do senso comum, mais fácil para o entendimento de todos, mais ilustrativa, comprova-se a ideia de Decio Pignatari.

Questão 6 – Na coesão textual, ocorre o que se chama catáfora quando um termo se refere a algo que ainda vai ser enunciado na frase.
Um exemplo em que o termo destacado constrói uma catáfora é:
(A)  Como se ela restituísse
(B)  Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico.
(C)  não numa partícula verbal externa a elas
(D)  No seu estado de língua, no dicionário, as palavras intermedeiam
Analisando as alternativas:
- Na letra A, “ela” faz referência à poesia, já citada anteriormente.
- Na letra B, “essas” são as suposições apresentadas anteriormente, no parágrafo que se inicia com “Houve esse tempo?”.
- Na letra C, “elas” retoma a expressão já citada “coisas ditas”.
- Na letra D, temos a catáfora. “Seu” refere-se às “palavras” (as palavras intermedeiam).

Questão 7 – A linguagem poética inverte essa relação, pois, vindo a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.
O vocábulo destacado estabelece uma relação de sentido com o que está enunciado antes. Essa relação de sentido pode ser definida como:
(A)  Explicação
(B)  Finalidade
(C)  Conformidade
(D)  Simultaneidade
Nesse enunciado, a conjunção “pois” introduz uma explicação. Pode-se pensar da seguinte forma:
Pergunta: Por que a linguagem poética inverte essa relação?
Resposta/ Explicação: porque oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.
Resposta: letra A

Questão 8 – Mas temos esses pequenos oásis – os poemas – contaminando o deserto da referencialidade.
As figuras de linguagem superpostas na frase são:
(A)  Metáfora e antítese
(B)  Ironia e metonímia
(C)  Elipse e comparação
(D)  Personificação e hipérbole
Resposta: letra A.
Metáfora: chamar os poemas de oásis e a linguagem não-poética de deserto.
Antítese: Oásis e deserto; poema e linguagem não-poética (referencialidade).

Questão 9 – No último parágrafo, o autor se refere à plenitude da linguagem poética, fazendo, em seguida, uma descrição que corresponde à linguagem não-poética, ou seja, à linguagem referencial.
Pela descrição apresentada, a linguagem referencial teria, em sua origem, o seguinte traço fundamental:
(A)  o desgaste da intuição
(B)  a dissolução da memória
(C)  a fragmentação da experiência
(D)  o enfraquecimento da percepção
A resposta só pode ser a letra C – fragmentação da experiência. Isso fica claro não só no último parágrafo, mas também em outros momentos do texto, em que se tem a ideia de fragmentação.
Veja:
“As palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da vida”.
“Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história”.
“antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando essas duas metades — significante e significado”.

É isso!
Em breve, falarei sobre as últimas seis questões da prova.
Até mais!