quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Comentários UERJ - o texto de Arnaldo Antunes


A origem da poesia
A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem.
Talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem verbal deixou de ser poesia. Ou: qual a origem do discurso não-poético, já que, restituindo laços mais íntimos entre os signos e as coisas por eles designadas, a poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas.
Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história.
A manifestação do que chamamos de poesia hoje nos sugere mínimos flashbacks de uma possível infância da linguagem, antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando essas duas metades — significante e significado.
Houve esse tempo? Quando não havia poesia porque a poesia estava em tudo o que se dizia? Quando o nome da coisa era algo que fazia parte dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, sexuais, guerreiras?
Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado.
Lembro-me de ter lido, certa vez, um comentário de Décio Pignatari, em que ele chamava a atenção para o fato de, tanto em chinês como em tupi, não existir o verbo ser, enquanto verbo de ligação. Assim, o ser das coisas ditas se manifestaria nelas próprias (substantivos), não numa partícula verbal externa a elas, o que faria delas línguas poéticas por natureza, mais propensas à composição analógica.
Mais perto do senso comum, podemos atentar para como colocam os índios americanos falando, na maioria dos filmes de cowboy — Eles dizem "maçã vermelha", "água boa", "cavalo veloz"; em vez de "a maçã é vermelha", "essa água é boa", "aquele cavalo é veloz". Essa forma mais sintética, telegráfica, aproxima os nomes da própria existência — como se a fala não estivesse se referindo àquelas coisas, e sim apresentando-as (ao mesmo tempo em que se apresenta).
No seu estado de língua, no dicionário, as palavras intermediam nossa relação com as coisas, impedindo nosso contato direto com elas. A linguagem poética inverte essa relação pois vindo a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.
[...]
Já perdemos a inocência de uma linguagem plena assim. As palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da vida. Mas temos esses pequenos oásis — os poemas — contaminando o deserto da referencialidade.
Arnaldo Antunes
Esse foi o texto que serviu como base para a realização de 7 questões da prova da UERJ. Apesar de interessante, não o considero fácil. Eu leria esse texto umas duas vezes, faria marcações, anotações ao lado e, só depois, começaria a fazer as questões.
E vamos a elas!
Questão 3 – A poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas.
A comparação entre a poesia e outros usos da linguagem põe em destaque a seguinte característica do discurso poético:
(A)  Revela-se como expressão subjetiva
(B)  Manifesta-se na referência ao tempo
(C)  Afasta-se das praticidades cotidianas
(D)  Conjuga-se com necessidades concretas

O gabarito divulgado dessa questão é a letra C. Se eu tivesse feito essa prova, também teria marcado essa opção, no entanto, não concordo com ela. Aliás, eu discordo de todas as opções apresentadas.
Sobre a opção A: primeiro, é importante que se entenda o que significa subjetividade.
Subjetivo: 1.Pertencente ou relativo ao sujeito. 2.Que está somente no sujeito, no eu; que passa ou existe no espírito. 3. Que exprime ou manifesta apenas as ideias ou preferências da própria pessoa; pessoal, individual.
Dicionário Michaelis on line
Agora, é possível perceber que a letra A não é adequada, pois o discurso poético não se revela apenas como expressão pessoal. A poesia também está relacionada ao mundo exterior, ao objeto, ou seja, se revela como expressão objetiva também. Quando o autor cita os filmes de cowboy e fala, por exemplo, da “maçã vermelha” como um exemplo de linguagem poética, fica claro que não se trata de uma referência subjetiva, trata-se de referência a um objeto externo à pessoa.
O autor apresenta a ideia de que em “maçã vermelha” a linguagem é mais poética do que em “Essa maçã é vermelha”. Neste último formato, a estrutura já estaria mais relacionada aos discursos “modernos”, que precisam seguir um formato para atender às necessidades sociais.

Sobre a letra B – Manifesta-se na referência ao tempo.
O fato de haver no texto a ideia de que a poesia relaciona-se à origem da linguagem, a um tempo passado, não significa que a característica do discurso poético seja manifestar-se na referência ao tempo. A poesia se manifesta na referência às coisas – objetivas e subjetivas.

Sobre a letra C – Afasta-se das praticidades cotidianas – Alternativa considerada correta pela banca.
Como disse no início, não concordo com essa resposta e as observações apresentadas sobre as letras a e b já antecipam minha explicação. O fato de a poesia ser anterior ao uso que se faz da palavra  em situações mais padronizadas de comunicação, como os discursos, os telefonemas etc, não indica, a meu ver, que ela se afaste das praticidades cotidianas. Segundo as ideias do texto, talvez ela se afaste da prática do mundo de hoje, do cotidiano que exige um certo padrão estrutural de comunicação, mas não das práticas cotidianas em geral.
O trecho a seguir confirma o que estou dizendo:
“Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história”.
É claro que, como eu também já disse, marcaria essa opção se tivesse feito a prova, pois, considerando o trecho utilizado como base para a pergunta, essa me parece a melhor alternativa. Isso quer dizer que me pareceu um dos exemplos de questão em que devemos marcar a mais adequada... e não exatamente a correta.
Acho que vou enviar um e-mail para o próprio Arnaldo Antunes e perguntar que alternativa ele marcaria nessa questão. Seria interessante saber a sua opinião. Vou tentar o contato.
Sobre a letra D – Conjuga-se com necessidades concretas
Essa não poderia ser, já que o discurso poético não está relacionado apenas às necessidades concretas.
Esse trecho me ajuda na explicação:
“[...]Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, sexuais, guerreiras?”.

Questão 4Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico.
Neste fragmento, a expressão em destaque é empregada para formar um conhecido recurso de argumentação.
Esse recurso pode ser definido como:
(A)  admitir uma hipótese para depois discuti-la
(B)  retomar uma informação para depois criticá-la
(C)  relativizar um conceito para depois descrevê-lo
(D)  apresentar uma opinião para depois sustentá-la
É preciso ler novamente todo o trecho para responder a essa questão.
“Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado”.Sem retomar a leitura do texto, a tendência é marcar a opção C, pois o “pode ser” confere relativização à ideia apresentada. Ou seja, não se está dizendo “Essas suposições SÃO utópicas”. O “pode ser” relativiza a argumentação.
Porém...
Não é essa a análise que deve ser feita. Lendo-se o trecho completo, o que se percebe é que o “pode ser” é utilizado para admitir que existe a possibilidade de as ideias apresentadas serem utópicas, porém, mais a frente, essa ideia é discutida – e refutada.
“Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado”.
Então, resposta correta: letra A.

Questão 5: Mais perto do senso comum
A expressão que inicia o trecho transcrito acima introduz uma comparação em relação ao comentário anterior, feito por Décio Pignatari.
O emprego da expressão comparativa revela que o autor considera o exemplo dos filmes de cowboy como algo que teria a seguinte caracterização:
(A)  muito complexo
(B)  menos elaborado
(C)  pouco importante
(D)  bastante diferente
Retomando a leitura dos dois parágrafos em questão, percebe-se que o exemplo dos filmes de cowboy foi apresentado para esclarecer a ideia apresentada por Décio Pignatari.
Quem está acostumado a fazer redações sabe que o uso de exemplos é de extrema importância para tornar o tema que está sendo desenvolvido mais concreto, mais real, menos teórico. E foi exatamente essa a função do exemplo dos filmes de cowboy no texto.
Dessa maneira, a resposta é a letra B. Por meio de uma informação menos elaborada, menos teórica, mais perto do senso comum, mais fácil para o entendimento de todos, mais ilustrativa, comprova-se a ideia de Decio Pignatari.

Questão 6Na coesão textual, ocorre o que se chama catáfora quando um termo se refere a algo que ainda vai ser enunciado na frase.
Um exemplo em que o termo destacado constrói uma catáfora é:
(A)  Como se ela restituísse
(B)  Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico.
(C)  não numa partícula verbal externa a elas
(D)  No seu estado de língua, no dicionário, as palavras intermedeiam
Analisando as alternativas:
- Na letra A, “ela” faz referência à poesia, já citada anteriormente.
- Na letra B, “essas” são as suposições apresentadas anteriormente, no parágrafo que se inicia com “Houve esse tempo?”.
- Na letra C, “elas” retoma a expressão já citada “coisas ditas”.
- Na letra D, temos a catáfora. “Seu” refere-se às “palavras” (as palavras intermedeiam).

Questão 7 – A linguagem poética inverte essa relação, pois, vindo a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.
O vocábulo destacado estabelece uma relação de sentido com o que está enunciado antes. Essa relação de sentido pode ser definida como:
(A)  Explicação
(B)  Finalidade
(C)  Conformidade
(D)  Simultaneidade
Nesse enunciado, a conjunção “pois” introduz uma explicação. Pode-se pensar da seguinte forma:
Pergunta: Por que a linguagem poética inverte essa relação?
Resposta/ Explicação: porque oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.
Resposta: letra A

Questão 8Mas temos esses pequenos oásis – os poemas – contaminando o deserto da referencialidade.
As figuras de linguagem superpostas na frase são:
(A)  Metáfora e antítese
(B)  Ironia e metonímia
(C)  Elipse e comparação
(D)  Personificação e hipérbole
Resposta: letra A.
Metáfora: chamar os poemas de oásis e a linguagem não-poética de deserto.
Antítese: Oásis e deserto; poema e linguagem não-poética (referencialidade).

Questão 9No último parágrafo, o autor se refere à plenitude da linguagem poética, fazendo, em seguida, uma descrição que corresponde à linguagem não-poética, ou seja, à linguagem referencial.
Pela descrição apresentada, a linguagem referencial teria, em sua origem, o seguinte traço fundamental:
(A)  o desgaste da intuição
(B)  a dissolução da memória
(C)  a fragmentação da experiência
(D)  o enfraquecimento da percepção
A resposta só pode ser a letra C – fragmentação da experiência. Isso fica claro não só no último parágrafo, mas também em outros momentos do texto, em que se tem a ideia de fragmentação.
Veja:
“As palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da vida”.
“Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história”.
“antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando essas duas metades — significante e significado”.

É isso!
Em breve, falarei sobre as últimas seis questões da prova.
Até mais!

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Comentários UERJ – A perspicácia, de René Magritte

                                                    A perspicácia, de RENÉ MAGRITTE (1936).
                                                                                                                             http://rene-magritte-paintings.blogspot.com/


Conforme prometido, seguem os primeiros comentários sobre o 2º exame de qualificação da UERJ.
A questão 1 era sobre metalinguagem – fenômeno que comenta a própria linguagem. Não sei o que acharam, mas eu considerei essa questão de nível fácil.
Vamos pensar um pouco sobre o assunto...
Por exemplo, aqui no blog, em muitos momentos, eu falo sobre o ato de escrever. Dessa maneira, temos metalinguagem, pois se trata de um texto escrito em que se fala sobre o texto escrito.
Já vi fotógrafos sendo fotografados durante o ofício. A fotografia, nesse caso, é também um exemplo de metalinguagem, pois se tem uma foto em que se mostra o ato de fotografar. (Perdão pela repetição!!!)
Dessa maneira, a imagem que serviu como base para a questão 1 é  uma pintura retratando um homem realizando o ato de pintar. Eis a metalinguagem!
A pergunta da prova era a seguinte:
O quadro “A perspicácia”, do belga René Magritte, é um exemplo de metalinguagem porque:
(A) destaca a qualidade do traço artístico
(B)mostra o pintor no momento da criação
(C)implica a valorização da arte tradicional
(D)indica a necessidade de inspiração concreta

A resposta certa só pode ser a letra B. Se há um pintor, no momento de sua criação ( a pintura), e isso está sendo apresentado em um quadro (uma pintura), temos uma linguagem, uma forma de expressão, retratando ela mesma. Ora... metalinguagem!!!
Tranquilo, né??

Questão 2
O quadro produz um estranhamento em relação ao que se poderia esperar de um pintor que observa um modelo para sua obra.
Esse estranhamento contribui para a reflexão principalmente sobre o seguinte aspecto da criação artística:
(A)  perfeição da obra
(B)  precisão da forma
(C)  representação do real
(D)  importância da técnica
O que se percebe na pintura é um homem observando um ovo e pintando uma ave. Ou seja, o que vemos como o real – o ovo – não é o que verificamos no quadro que está sendo pintado. Isso nos faz perceber que na criação artística o real não precisa necessariamente ser reproduzido, o real pode servir de apoio para que se crie algo novo, original.
Diante disso, o estranhamento a que a questão se refere nos faz refletir sobre a representação do real como aspecto da criação artística. Letra C!
Por hoje é isso!

domingo, 11 de setembro de 2011

Comentários UERJ. Em breve!

Olá, pessoal!


Para quem fez a prova da UERJ, espero que tenha corrido tudo bem.


Farei, em breve, postagem com comentários sobre algumas questões de Língua Portuguesa. Olhei rapidamente a prova e achei que os textos de Rubem Braga e Arnaldo Antunes tornaram a avaliação gostosa de fazer. Aliás, eu adoro "A palavra".


Discordei do gabarito de uma questão, mas vou analisá-la com mais calma depois.


Então... aguardem os comentários e fiquem à vontade para enviar dúvidas.


Até mais!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Mais uma para a UERJ - Conectivos

No primeiro exame de qualificação da UERJ deste ano, a prova apresentou a seguinte questão:
“Não resguardarei os apontamentos obtidos em largos dias e meses de observação: num momento de aperto, fui obrigado a atirá-los na água”.
(Trecho de Memórias do Cárcere – Graciliano Ramos)
O fragmento acima poderia ser reescrito com a inserção de um conectivo no início do trecho sublinhado.
Esse conectivo, que garantiria o mesmo sentido básico do fragmento, está indicado em:
(A)  porque
(B)  embora
(C)  contudo
(D)  portanto

Vamos à análise.
Acho que muitos que erraram essa questão não sabiam o significado do verbo “resguardar”. É esse verbo o grande auxiliador da sentença. Identificando o seu significado, a resposta certa aparece automaticamente.

Resguardar: 1-Guardar com cuidado. 2- Pôr a salvo, abrigar, defender. 3-Guardar com cautela e vigilância. 4- Cumprir, observar [...]”.
Fonte: Dicionário Michaelis.

Pelos significados verificados, dá para entender que, em geral, o verbo apresenta a ideia de “preservar”.
. O casebre mal o resguardava / preservava da tempestade.
. Uma árvore resguarda/ preserva a entrada da casa.
. Quero tudo por escrito para me resguardar/ preservar.

Sendo assim:
“Não PRESERVAREI os apontamentos obtidos em largos dias e meses de observação: num momento de aperto, fui obrigado a atirá-los na água”.
Agora, com a frase mais clara, é fácil perceber que a parte sublinhada é a causa do que foi antes apresentado. Os apontamentos obtidos pelo narrador não serão preservados, mantidos, porque ele foi obrigado a atirá-los na agua, num momento de aperto.
E a resposta está dada: letra A.

_______________________________________________________

E, aproveitando o ensejo, sugiro que prestem atenção aos conectivos que usamos pouco no dia-a-dia. Eles podem aparecer em alguma questão domingo.

 Alguém saberia dizer o significado dos conectores abaixo?

1.Porquanto
2. Conquanto
3.Posto que
4.Não obstante
5.A despeito de
6. Outrossim

Na minha vida, eu só uso mesmo o “a despeito de”. Os outros, nem em textos formais.

Seguem os significados:
1.Porquanto - porque, uma vez que, já que.
Ex: Todo mundo estava preocupado, porquanto já era tarde e ela ainda não havia telefonado.

2. e 3. Conquanto e Posto que – embora
Ex: Conquanto a economia tenha crescido, grande parte da população brasileira ainda é miserável.
Ex: Gosto dele, posto que seja meio antipático.

Obs: Esqueça-se do Vinícius de Moraes na hora da prova. Em seu “Soneto de fidelidade”, ele utiliza o “posto que” como sinônimo de “já que”, “uma vez que”. Apesar do texto maravilhoso, a norma não foi seguida pelo autor.
“Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”

4 e 5. Não obstante e A despeito de – apesar de
Ex: Não obstante as polêmicas, teve muitos apoios.
Ex: A despeito de todos os problemas, a situação foi resolvida.

6. Outrossim – Também, igualmente, além disso
Ex: É importante que você fale sobre o resultado da pesquisa. Outrossim, sobre o próximo evento da empresa.

Alguns desses conectivos são horrorosos, na minha opinião. Tornam a frase pesada, mas... é preciso conhecê-los.

Ahhh.... recomendo o artigo do professor Sérgio Nogueira sobre conectivos.

Até mais!!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Dedução e indução na UERJ


Olá! Um pequeno aviso antes da sua leitura.
Em junho de 2015, o blog voltará a ter publicações periódicas. Você tem dificuldade em algum tema específico e quer que eu o aborde por aqui? Se sim, envie-me um e-mail explicando-me a sua necessidade e eu preparei novos conteúdos a respeito! Aguardo seu contato pelo e-mail: lygiafs@yahoo.com.br 
Até breve!

________________________________________________________________________

No próximo domingo, dia 11/09, haverá o 2º exame de qualificação da UERJ. Um dos conteúdos apresentados no edital é Métodos de argumentação: indução e dedução.
Trata-se de um tema que poucas pessoas vêem na escola  e, além disso, poucas informações de qualidade são encontradas sobre o assunto quando se faz uma busca no Google. Eu fiz a pesquisa e achei apenas esse conteúdo aqui legal:
http://acabar.no.sapo.pt/txdeduindu.htm
Na verdade, o assunto é brilhantemente abordado no “Comunicação em Prosa Moderna” de Otto M. Garcia, porém, sei que quem não é da área de Letras dificilmente terá esse livro.
Por tudo isso, resolvi tratar do tema por aqui.
Os dois métodos em questão são utilizados por todos nós quando escrevemos uma dissertação-argumentativa, por exemplo, ou qualquer outro tipo de texto em que pretendemos comprovar um posicionamento.
Quando temos uma opinião e a comprovamos com dados da realidade, estamos utilizando o método indutivo. Isso que dizer que quando eu cito testemunhos de autoridade, dou exemplos, uso estatísticas, estou utilizando o método indutivo para argumentar.

                                   “Pela indução, partimos da observação e análise de fatos concretos, específicos, para chegarmos à conclusão”.
Otto M. Garcia em Comunicação em prosa moderna.

 Vamos ver isso na prática:
A realização de grandes eventos esportivos no Rio de Janeiro, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, não é positiva para comunidades carentes cariocas. Já foi noticiado pela mídia que alguns moradores da Zona Oeste tiveram que aceitar indenizações irrisórias do Governo e deixar suas residências. Houve casos em que pessoas saíram para trabalhar e encontraram suas casas demolidas quando retornaram. O motivo dos despejos é a construção da Transoeste, via que facilitará a locomoção dos esportistas durante os eventos. O discurso de que os mais pobres serão beneficiados com 2014 e 2016 é, portanto, falacioso e toda a sociedade deve estar atenta para não se deixar levar pelas pseudo boas ações governamentais.   
Partindo para a análise:
Em laranja, temos uma opinião, que deverá ser defendida durante o parágrafo. Em azul, temos fatos concretos que comprovam a opinião apresentada.
Em verde, temos uma ratificação – até dispensável – do primeiro período do texto.
Esse é um exemplo de modo indutivo de argumentação. Eu parto do concreto para chegar a minha teoria.

No método dedutivo, a opinião é comprovada somente com ideias, sem apresentação de elementos concretos, de situações específicas. Parte-se da ideia geral, da teoria, para se comprovar uma situação específica.
                                                          
“Se, pelo método indutivo, partimos dos fatos particulares para a generalização, pelo dedutivo, caminhamos em sentido inverso: do geral para o particular, da generalização para a especificação, do desconhecido para o conhecido. É método a priori: da causa para o efeito”.
Otto M. Garcia – Comunicação em Prosa Moderna

Vamos ver na prática:
A realização de grandes eventos esportivos no Rio de Janeiro não é positiva para comunidades carentes cariocas. Todo cidadão deve ter o direito de bem viver a todo tempo, com condições intelectuais para disputar bons empregos e garantir sua sobrevivência. Ao colocar as Olimpíadas e a Copa como “salvadoras” dos mais pobres, por conta da geração de empregos temporários, o que se percebe é um grande desrespeito do governo em relação a essa população, uma vez que servir de mão de obra barata e por tempo determinado não significa dignidade.
Em laranja, temos uma opinião que deverá ser defendida, comprovada no decorrer do paragrafo.
Em azul, começo com uma premissa, um fato incontestável, uma ideia generalista “Todo cidadão deve ter o direito de bem viver a todo tempo, com condições intelectuais para disputar bons empregos e garantir sua sobrevivência.”
Nesse momento, eu não falei sobre o cidadão pobre, eu falei sobre todos os cidadãos. Ou seja, estou na generalização e pretendo, com isso, chegar à especificação.
Nos períodos seguintes eu começo a especificar, falo sobre os mais pobres e, por meio do encadeamento das ideias, comprovo a opinião apresentada em laranja.

Por fim, acho interessante inserir duas questões que caíram na prova do concurso para tutor do CEDERJ sobre dedução e indução.

QUESTÃO 1: De maneira geral, é possível afirmar que dois raciocínios lógicos essenciais podem ser empregados quando se realiza uma argumentação: indução e dedução. Leia o parágrafo a seguir, elaborado em uma redação cujo tema era “a educação como meio de combater a violência”, e identifique qual (quais) o(s) raciocínio(s) utilizado(s):
“Nesse sentido, a educação pode constituir um meio eficaz de combate à violência. Em pesquisa recente da Unesco, identificou-se que o percentual do PIB investido por um país em educação é inversamente proporcional às suas taxas de criminalidade, comprovando uma sensação comum a estudiosos. O Brasil, com escolas decadentes, é um triste exemplo dessa realidade”.
(A)  Indução
(B)  Dedução
(C)  Indução e dedução
(D)  Dialética
(E)  Nenhum raciocínio foi empregado

QUESTÃO 2: Faça o mesmo com o seguinte parágrafo, elaborado em uma redação com o mesmo tema “a educação como meio de combater a violência”:
“Nesse sentido, a educação pode constituir um meio eficaz de combate à violência. Isso porque, em sua origem, muitos crimes são explicados por fatores morais, mais do que por pressões sociais. Sem dúvida, o que leva alguém a infringir uma lei, em última instância, são seus valores. A esse respeito, o sistema educacional pode oferecer alternativas, na medida em que exerce papel decisivo na formação do caráter individual”.
(A)   Indução
(B)  Dedução
(C)  Indução e dedução
(D)  Dialética
(E)  Nenhum raciocínio foi empregado

Respostas:
Questão 1: Indução
Questão 2: Dedução

E ponto.